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Dízimo É Obrigatório para Cristão? O Que a Bíblia Realmente Diz

Dízimo é obrigatório para cristão? Essa é uma das perguntas mais pesquisadas no Google cristão brasileiro, e não é difícil entender por quê.

Muita gente já sentiu o peso de um sermão sobre dízimo que terminou com uma ameaça velada ou uma promessa de bênção financeira condicionada ao pagamento. Muita gente já se afastou de uma igreja carregando culpa porque não conseguia pagar os dez por cento e muita gente sincera quer saber, sem manipulação e sem pressão, o que a Bíblia realmente diz sobre isso.

Este artigo é uma tentativa honesta de responder essa pergunta.

Dízimo é obrigatório para cristão? O que a pregação popular costuma dizer

A pregação mais comum sobre dízimo no Brasil parte de Malaquias 3:10 Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal que dela não haja lugar suficiente para recebê-la.

O argumento costuma ser direto, quem não dizima está roubando a Deus, está sob maldição e está perdendo bênçãos, quem dizima está protegido, prosperado e agradando a Deus, é uma mensagem poderosa e é, em grande parte, uma leitura incompleta da Bíblia.

O dízimo na Bíblia, de onde ele vem

Para entender o dízimo, é preciso entender em que contexto ele aparece na Bíblia.

O dízimo era uma prática do sistema da Lei de Moisés, estabelecida para sustentar os levitas a tribo sacerdotal que não recebeu herança de terra em Israel e dependia das contribuições do povo para sobreviver. Era, na prática, um sistema de imposto teocrático dentro de uma nação específica, num contexto histórico específico.

Malaquias 3, o texto mais usado nos sermões sobre dízimo, foi escrito para Israel num momento de crise espiritual e econômica. O povo estava negligenciando o templo, os sacerdotes estavam passando necessidade e o sistema de adoração estava se desmontando, o chamado de Malaquias era um chamado de restauração dentro da aliança mosaica.

Isso não significa que o texto não tem nada a dizer para nós, mas significa que aplicá-lo diretamente ao cristão da Nova Aliança sem passar pela lente do evangelho é um erro de interpretação que tem consequências reais na vida das pessoas.

O que Jesus disse sobre dízimo

Jesus mencionou o dízimo uma vez, em Mateus 23:23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas desprezastes o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fidelidade. Devia-se fazer estas coisas e não omitir aquelas.

É uma repreensão aos fariseus que cumpriam o dízimo com precisão milimétrica enquanto ignoravam justiça e misericórdia. Jesus não aboliu o dízimo nesse texto, mas também não o elevou como o centro da vida do discípulo, Ele apontou para algo maior, o coração por trás da prática.

E aqui está uma pista importante, Jesus estava falando com judeus, sob a Lei, antes da cruz, o contexto muda radicalmente depois da ressurreição.

O que os apóstolos ensinaram sobre generosidade

Depois da cruz e da ressurreição, os apóstolos escreveram extensamente sobre dinheiro e generosidade e nenhum deles usou Malaquias 3 como base para exigir dez por cento.

Paulo, em 2 Coríntios 9:6-7, diz: Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza nem por necessidade, pois Deus ama o que dá com alegria.

Três elementos saltam nesse texto, primeiro, a quantia não é fixada, segundo, a decisão é pessoal e interna: segundo propôs no seu coração, terceiro, a motivação é alegria, não medo de maldição.

Isso é o oposto da lógica de Malaquias aplicada como obrigação, não porque generosidade não importa, mas porque a motivação mudou completamente.

Lei versus graça na generosidade

Na Antiga Aliança, a obediência era motivada por bênção e maldição, obedeça e será abençoado, desobedeça e sofrerá as consequências, era um sistema pedagógico, como Paulo chama em Gálatas 3:24, que apontava para Cristo.

Na Nova Aliança, a motivação é diferente, você não dá para ser abençoado, você dá porque já foi abençoado, você não doa para fugir de maldição, você doa porque entende o que foi dado por você na cruz.

Isso não diminui a generosidade, na verdade, ela tende a ser muito maior quando nasce de gratidão do que quando nasce de obrigação, até porque agora fazemos parte de uma aliança superior, então poruqe entregaríamos menos que na antiga aliança? Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores. Hebreus 8:6

Uma pessoa que entende o evangelho da graça não pergunta “quanto o mínimo que preciso dar?” Ela pergunta “quanto posso dar?” A diferença entre as duas perguntas revela tudo sobre a motivação. Ela não fica sepropor no seu coração de forma justa, generosa e com o entendimento da nova aliança.

Então o cristão não precisa dar nada?

Não é isso que o evangelho diz, a generosidade é um fruto natural e consistente da vida transformada pela graça, o Novo Testamento está cheio de exemplos de comunidades que davam com sacrifício, que sustentavam pregadores, que cuidavam dos pobres e das viúvas.

A igreja primitiva em Atos 2 e 4 praticava uma generosidade que ia muito além dos dez por cento, eles vendiam propriedades. Partilhavam tudo, não porque a lei exigia, mas porque o amor transbordava, o ponto não é dar menos, o ponto é dar por razões certas.

Sustentar a comunidade local, apoiar pregadores e missionários, cuidar dos que têm necessidade, financiar o avanço do evangelho, essas são responsabilidades reais do cristão na Nova Aliança. A questão é que elas nascem de um coração transformado, não de uma obrigação legal de dez por cento calculada sobre o salário bruto.

Uma palavra para quem se afastou por causa de pressão financeira

Se você se afastou de uma igreja, ou da fé, carregando culpa por não ter conseguido pagar o dízimo, precisa ouvir isso:Você não estava roubando a Deus, você estava numa situação difícil, e merecia misericórdia, não mais pressão.

O evangelho não é um sistema de assinatura onde sua relação com Deus depende do pagamento em dia, a graça de Deus não tem mensalidade e qualquer mensagem que tenha te feito sentir que a presença de Deus na sua vida era condicionada ao seu dinheiro estava errada, independente de quem a pregou, você pode voltar, sem dever nada.

Dízimo é obrigatório para cristão? A resposta direta

Dízimo é obrigatório para cristão? A resposta honesta é não, no sentido de uma obrigação legal de dez por cento que, se descumprida, coloca você sob maldição ou fora da graça de Deus.

Generosidade, por outro lado, é uma marca consistente da vida cristã, não como lei, mas como resposta ao evangelho. A quantia, a forma e o destino são decididos por cada pessoa diante de Deus, com liberdade, com alegria e com um coração que entende o que recebeu.

Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza nem por necessidade, pois Deus ama o que dá com alegria. 2 Coríntios 9:7

Essa é a base, não Malaquias aplicado fora de contexto, não dez por cento como ingresso para a bênção de Deus, um coração livre, generoso e grato.

Este artigo faz parte da série Perguntas que Ninguém Responde Direito. Leia também os outros artigos da série em herso.com.br

Sobre o autor: Herso é pastor e escritor. Escreve sobre o evangelho da graça em herso.com.br e no Instagram @hersomeus.

Leia também: Estudos sobre Dízimo e Oferta

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