É pecado sentir raiva, tristeza ou ansiedade? Se você já se fez essa pergunta, provavelmente foi criado numa espiritualidade que ensinou, de forma explícita ou silenciosa, que cristão de verdade não sente essas coisas.
Cristão de verdade tem paz. Cristão de verdade tem alegria. Cristão de verdade não fica ansioso porque a Bíblia diz para não ficar. E quando você sente raiva, ou tristeza, ou acorda de madrugada com o peito apertado, a conclusão que sobra é que algo está errado com você, com a sua fé, com a sua relação com Deus.
Esse é um dos ensinamentos mais prejudiciais que o legalismo produziu e ele precisa ser desmontado com cuidado.
O que a religião costuma ensinar sobre emoções
A mensagem religiosa sobre emoções costuma ter duas versões, a primeira é a repressão direta: você não deveria sentir isso, então não sinta. Ore mais, louве mais, confesse mais, e o sentimento vai embora, se não foi embora, é porque você não está orando o suficiente.
A segunda versão é mais sofisticada, mas igualmente problemática: você pode sentir, mas precisa controlar imediatamente, qualquer emoção negativa que dure mais do que alguns minutos é sinal de falta de fé ou de pecado não resolvido.
Nos dois casos, o resultado prático é o mesmo, pessoas que aprendem a esconder o que sentem, que desenvolvem uma espiritualidade de superfície, que sorriem no culto e choram sozinhas em casa, que carregam ansiedade e depressão com vergonha porque a igreja ensinou que isso é falta de fé.
É pecado sentir raiva, tristeza ou ansiedade? O que Jesus nos mostra
Antes de ir aos textos, vale olhar para Jesus, não para o Jesus da espiritualidade plástica que nunca se perturbou com nada, mas para o Jesus dos evangelhos.
João 11:35 é o versículo mais curto da Bíblia: “Jesus chorou.” Ele estava diante do túmulo de Lázaro, rodeado por pessoas em luto, e chorou, Ele sabia que ia ressuscitar Lázaro, Ele tinha poder para resolver a situação e ainda assim chorou, o choro de Jesus não foi falta de fé, foi humanidade plena.
Em Marcos 3:5, Jesus ficou irado com a dureza de coração dos fariseus: E, olhando para eles com indignação, contristado pela dureza do seu coração… Raiva e tristeza no mesmo versículo, no mesmo momento, na mesma pessoa de Jesus.
Em Mateus 26:37-38, no Getsêmani, Jesus disse aos discípulos: A minha alma está profundamente triste, até a morte. Ele pediu que ficassem acordados com Ele, Ele não estava performando uma crise para fins didáticos, Ele estava, de verdade, angustiado.
Se Jesus sentiu tristeza profunda, raiva justa e angústia genuína, a pergunta muda de figura, não é mais é pecado sentir essas coisas? É por que ensinamos que é?
A diferença entre sentir e agir
A Bíblia faz uma distinção importante que a pregação popular frequentemente apaga: a diferença entre a emoção em si e o que você faz com ela. Efésios 4:26 diz: Irai-vos, mas não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.
Leia com atenção, Paulo não diz não sintais raiva, Ele diz irai-vos, mas não pequeis, a raiva está pressuposta como possível e até legítima, o pecado não está no sentimento, mas no que você faz com ele quando não é resolvido.
A emoção é o sinal, o pecado, quando acontece, está na resposta ao sinal, raiva que leva à violência, à crueldade, ao rancor cultivado ao longo dos anos, isso é pecado, a raiva em si, como resposta emocional a uma injustiça, não é.
O mesmo vale para tristeza e ansiedade, tristeza diante de perda é saudável e humana, ansiedade diante de incerteza é uma resposta do sistema nervoso que Deus colocou em você. Essas emoções se tornam problemáticas quando dominam a vida de forma crônica, quando paralisam, quando distorcem a realidade, mas isso é uma questão de saúde, não de pecado.
Filipenses 4 e o versículo mais mal aplicado sobre ansiedade
Filipenses 4:6 é provavelmente o versículo mais usado para fazer cristãos ansiosos se sentirem culpados: Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, em tudo, pela oração e pela súplica com ações de graças, fazei os vossos pedidos conhecidos diante de Deus.
A aplicação religiosa costuma ser direta, se você está ansioso, é porque não está orando, a ansiedade é sinal de falta de fé, pare de ser ansioso.
Mas isso ignora completamente o contexto, Paulo escreveu Filipenses de dentro de uma prisão, enfrentando a possibilidade real de execução, Ele não estava pregando de um lugar de conforto para pessoas confortáveis, o que ele propôs não foi pare de sentir, foi traga o que você sente para Deus.
A oração em Filipenses 4 não é uma técnica para eliminar a ansiedade na hora, é um convite para levar a ansiedade real, concreta, ao Deus que pode sustentar. E o resultado prometido, a paz que excede todo entendimento, é um presente de Deus, não uma conquista de esforço humano.
Há uma diferença enorme entre “não sinta ansiedade” e “não deixe a ansiedade governar sozinha.” Paulo está dizendo a segunda coisa, não a primeira.
Saúde mental não é falta de fé
Esse ponto precisa ser dito com clareza porque ainda há muita confusão sobre isso em ambientes cristãos.
Depressão é uma condição de saúde, ansiedade generalizada é uma condição de saúde, transtorno bipolar, TOC, TEPT, são condições de saúde. Elas têm bases neurológicas, genéticas e contextuais, elas respondem a tratamento clínico e elas não dizem nada sobre o nível de fé de quem as tem.
Elias, depois de uma das maiores vitórias espirituais da Bíblia, pediu a Deus que o matasse e deitou debaixo de uma árvore 1 Reis 19, o que Deus fez? Mandou um anjo com comida e água. Duas vezes. Antes de qualquer conversa espiritual, o cuidado físico e emocional veio primeiro.
Davi escreveu Salmos que descrevem sintomas que hoje reconheceríamos como depressão, exaustão profunda, sensação de abandono, choro sem motivo aparente, perda de sentido, e esses Salmos estão na Bíblia, não como exemplos do que não fazer, mas como oração legítima diante de Deus.
Buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica não é falta de fé é sabedoria, assim como buscar um médico para uma fratura não é falta de fé, buscar um profissional de saúde mental para cuidar da mente é responsabilidade, não fraqueza espiritual.
A espiritualidade que não reprime emoção
Uma espiritualidade saudável não é aquela que elimina emoções difíceis, é aquela que sabe o que fazer com elas.
Os Salmos são o maior manual de vida emocional da Bíblia, e eles cobrem o espectro inteiro: alegria transbordante, gratidão profunda, raiva de Deus, acusação, lamento, desespero, confusão, abandono, nenhum sentimento foi censurado, todos foram levados a Deus, isso é o que a espiritualidade saudável faz, não reprime, não performa, não esconde, leva a Deus.
Você pode dizer a Deus que está com raiva, você pode dizer que está triste sem motivo aparente, você pode confessar que está ansioso e que não consegue parar, você pode, como Davi, perguntar até quando, Senhor? sem que isso seja incredulidade, é oração real, de uma pessoa real, para um Deus que não se assusta com o que você sente.
É pecado sentir raiva, tristeza ou ansiedade? A resposta direta
Não. Sentir raiva, tristeza ou ansiedade não é pecado, são respostas emocionais humanas, presentes na vida de Jesus, dos profetas, dos apóstolos e de praticamente todo personagem bíblico que enfrentou algo difícil.
O que importa não é a ausência dessas emoções, mas o que você faz com elas, se a raiva vira rancor que destrói relacionamentos, isso é um problema, se a tristeza vira isolamento permanente que precisa de cuidado profissional, busque ajuda, se a ansiedade está dominando sua vida a ponto de paralisar, isso merece atenção, espiritual e clínica.
Mas sentir essas coisas? Isso é ser humano e Deus não tem medo da sua humanidade.
Este artigo faz parte da série Perguntas que Ninguém Responde Direito. Leia todos os artigos da série em herso.com.br
Sobre o autor: Herso é pastor e escritor. Escreve sobre o evangelho da graça em herso.com.br e no Instagram @hersomeus.





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