Preciso me sentir arrependido para ser perdoado? Essa pergunta parece simples mas por baixo dela mora uma das maiores armadilhas da vida cristã.
Você pecou, sabe que errou, mas não está sentindo aquele peso, aquelas lágrimas, aquela dor intensa que a religião parece exigir como prova de arrependimento de verdade. E então vem a dúvida: será que meu arrependimento é suficiente? Será que Deus me perdoa assim, sem eu sentir mais?
Se você já ficou preso nessa dúvida, este artigo é para você.
Preciso me sentir arrependido para ser perdoado? O que a religião ensina
A mensagem religiosa sobre arrependimento costuma ser construída em torno de emoção. O arrependimento “de verdade” precisa doer, precisa ter choro, precisa ter uma intensidade emocional visível e quanto mais intensa, mais legítima.
O problema é que isso coloca o perdão de Deus como dependente da sua capacidade emocional do dia.
E se você for uma pessoa que não chora com facilidade? E se você estiver emocionalmente exausta e simplesmente não tiver mais lágrimas? E se você pecar, souber que errou, quiser mudar mas não sentir aquela dor que parece ser o ingresso de entrada para o perdão?
Segundo essa lógica, Deus esperaria você atingir um nível emocional mínimo antes de perdoar. O que é, na prática, mais uma forma de ganhar o perdão pelo seu próprio esforço dessa vez emocional.
O que arrependimento realmente significa na Bíblia
A palavra grega usada no Novo Testamento para arrependimento é metanoia, ela é formada por duas partes: meta (mudança) e noia (mente, pensamento). Arrependimento, no sentido bíblico, é mudança de mente, uma reorientação de direção, uma virada de perspectiva.
Não é ausência de emoção, mas também não é a emoção em si.
Você pode ter um colapso emocional, chorar a noite toda, sentir uma culpa esmagadora e não ter se arrependido no sentido bíblico, porque a sua mente não mudou, a sua direção não mudou. Isso é o que Paulo chama de “tristeza do mundo” em 2 Coríntios 7:10: Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, que não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte.
Há dois tipos de tristeza aqui, a tristeza segundo Deus leva a uma mudança real de mente, de direção. A tristeza do mundo é só dor emocional sem reorientação pode até parecer mais intensa, mas não leva a lugar nenhum.
O critério não é a intensidade do sentimento é a direção do coração.
A diferença entre remorso e arrependimento
Judas sentiu remorso depois de trair Jesus, Mateus 27:3 diz que ele “se arrependeu” mas a palavra usada ali no grego é diferente: metamélomai, que fala de pesar emocional, não de mudança de mente, Judas foi devolver as moedas de prata, confessou que traíra sangue inocente e foi se enforcar.
Pedro também negou Jesus, três vezes, na mesma noite e chorou amargamente, mas Pedro voltou, não porque o choro dele foi mais intenso que o de Judas, mas porque a direção do coração era diferente.
O arrependimento que importa não é medido pela quantidade de lágrimas é medido por para onde você está olhando depois que cai.
Então preciso me sentir arrependido para ser perdoado?
A resposta honesta é você precisa se voltar para Deus não necessariamente se sentir de um jeito específico.
O filho pródigo em Lucas 15 caiu em si tomou consciência da situação, mudou de direção e voltou para o pai. O texto não diz que ele chorou o caminho inteiro de volta, não descreve a intensidade emocional no caminho, escreve uma decisão: “Me levantarei e irei a meu pai.”
E o que o pai fez? Correu, antes do filho terminar o discurso de confissão que havia preparado o pai já estava abraçando.
O perdão não esperou a performance emocional completa.
O perigo da introspecção excessiva
Existe uma armadilha sutil que nasce exatamente dessa confusão entre sentimento e arrependimento: a introspecção excessiva.
Você peca, quer se arrepender, e então começa a examinar os próprios sentimentos compulsivamente. Estou sentindo o suficiente? Essa dor é genuína ou estou fingindo? Será que no fundo não me importo? E quanto mais você examina, menos certeza tem e mais longe de Deus fica.
Martinho Lutero sofreu muito com isso antes da Reforma, Ele se confessava por horas, tentando ter certeza de que havia confessado tudo com o arrependimento correto. O confessor chegou a dizer: “Martinho, Deus não está com raiva de você, você está com raiva de Deus.”
A solução não era mais introspecção, era olhar para fora de si, para Cristo.
Preciso me sentir arrependido para ser perdoado a base que não muda
Em 1 João 1:9 há uma das promessas mais diretas da Bíblia sobre perdão: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.
O critério aqui é confissão não intensidade emocional, confessar significa reconhecer, concordar com Deus sobre o que aconteceu, não esconder. Isso pode vir acompanhado de muita emoção, pode vir num sussurro seco às três da manhã, sem nenhuma lágrima.
Nos dois casos, a promessa é a mesma: ele é fiel e justo para perdoar.
O perdão não depende da sua capacidade emocional, depende da fidelidade d’Ele.
Uma palavra para quem está tentando sentir mais para merecer o perdão
Se você está hoje tentando forçar uma emoção que não está vindo, tentando produzir um nível de dor que pareça suficiente para Deus precisa ouvir isso: Você não consegue se arrepender o suficiente para merecer o perdão, ninguém consegue e esse não é o ponto.
O ponto é que Cristo já pagou, o perdão já foi comprado, o que você precisa não é de mais sentimento é de mais fé no que já foi feito.
Olhe para a cruz, não para os seus sentimentos sobre a cruz, para a cruz.
Conclusão
Preciso me sentir arrependido para ser perdoado? Não no sentido de atingir um nível emocional mínimo que funcione como ingresso para o perdão de Deus.
Arrependimento bíblico é mudança de mente e de direção não performance emocional, você pode voltar para Deus agora, do jeito que você está, com os sentimentos que você tem ou não tem, a fidelidade d’Ele não depende da intensidade dos seus.
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar. 1 João 1:9
Essa promessa está de pé hoje, independente do que você está sentindo.
Este artigo faz parte da série Perguntas que Ninguém Responde Direito. Leia também: “Deus ainda me perdoa mesmo quando eu peca de novo?” e “Por que Deus parece distante mesmo quando oro?”
Sobre o autor: Herso é pastor e escritor. Escreve sobre o evangelho da graça em herso.com.br e no Instagram @hersomeus.


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