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O culto cristão na Nova Aliança: atos proféticos, danças, bandeiras e objetos à luz da Bíblia

E o culto cristão na Nova Aliança? Existe uma pergunta que todo cristão deveria fazer com mais frequência: como deve ser o culto cristão segundo o Novo Testamento?

Essa pergunta se tornou especialmente importante em uma época na qual diferentes práticas foram incorporadas às reuniões da igreja. Bandeiras de Israel, danças proféticas, tecidos coloridos, atos proféticos, objetos ungidos, unções especiais, performances e diversos elementos simbólicos passaram a fazer parte da experiência de muitas comunidades cristãs.

Algumas dessas práticas são apresentadas como manifestações espirituais, outras são justificadas com exemplos encontrados no Antigo Testamento. Em muitos casos, porém, a pergunta mais importante não é feita: onde o Novo Testamento ensina a igreja a praticar essas coisas?

Não se trata de perseguir pessoas que praticam essas expressões, também não se trata de afirmar que tudo aquilo que produz emoção é necessariamente falso, a questão é muito mais séria. Trata-se de compreender a diferença entre aquilo que Deus realmente estabeleceu para a igreja e aquilo que foi acrescentado posteriormente pela tradição religiosa, pela cultura ou por interpretações que ultrapassam aquilo que a Escritura afirma.

Quando falamos sobre culto cristão na Nova Aliança, precisamos começar por Cristo.

O culto cristão mudou porque a aliança mudou

Uma das maiores dificuldades na compreensão do culto cristão está em não perceber plenamente a mudança entre a antiga e a Nova Aliança.

Israel possuía templo, sacerdócio levítico, altar, sacrifícios, incenso, objetos sagrados, vestimentas sacerdotais, festas, dias determinados, purificações e uma estrutura religiosa cuidadosamente estabelecida.

Tudo isso fazia parte da aliança estabelecida com Israel, entretanto, o Novo Testamento apresenta Jesus Cristo como o cumprimento das realidades para as quais todo aquele sistema apontava.

Hebreus desenvolve esse argumento de maneira extraordinária, Cristo é apresentado como o verdadeiro sumo sacerdote, seu sacrifício é apresentado como superior aos sacrifícios anteriores, sua aliança é superior à antiga, seu sacerdócio é permanente, sua obra é suficiente.

Hebreus 8:13 afirma que, ao falar de uma Nova Aliança, Deus tornou antiga a primeira, isso muda completamente nossa maneira de pensar o culto.

Não estamos simplesmente pegando o sistema religioso de Israel e acrescentando Jesus a ele, estamos diante de uma nova realidade inaugurada pela obra de Cristo.

Por isso, não podemos pegar elementos da antiga aliança, retirá-los de seu contexto e simplesmente transformá-los em práticas espirituais obrigatórias ou normativas para a igreja.

Bandeiras de Israel no culto cristão

Israel ocupa um lugar fundamental na história da redenção, Jesus nasceu judeu, os apóstolos eram judeus, as Escrituras do Antigo Testamento formam o ambiente histórico e teológico no qual o evangelho foi anunciado.

Isso, entretanto, não significa que o Estado moderno de Israel deva ocupar uma posição litúrgica dentro do culto cristão.

A bandeira do Estado de Israel é um símbolo nacional moderno, ela não foi estabelecida pelo Novo Testamento como símbolo do culto cristão.

Existe ainda uma questão hermenêutica importante, muitas pessoas encontram referências a estandartes, bandeiras e símbolos no Antigo Testamento e concluem que a igreja deveria utilizar bandeiras durante o culto, mas isso confunde descrição com prescrição, entende a diferença?

O fato de Israel possuir estandartes tribais não significa que a igreja recebeu um mandamento para utilizar bandeiras durante suas reuniões, o fato de determinadas imagens aparecerem na poesia bíblica não significa que essas imagens devam ser transformadas em práticas litúrgicas.

É preciso respeitar o contexto de cada texto, mais importante ainda, precisamos lembrar que a identidade do povo da Nova Aliança não está fundamentada em um símbolo nacional, a igreja é definida por sua relação com Cristo.

Paulo chama Cristo de cabeça do corpo, que é a igreja, em Colossenses 1:18, Cristo ocupa o centro absoluto da identidade da comunidade cristã, por isso, uma bandeira nacional não pode assumir uma função espiritual que pertence ao próprio Cristo.

Dança profética e a diferença entre expressão artística e prática espiritual

Outra prática que precisa ser analisada cuidadosamente é a chamada dança profética.

A Bíblia fala sobre dança, Miriã dançou após a libertação de Israel, Davi dançou diante do Senhor, os Salmos utilizam a linguagem da dança em determinados contextos de louvor, portanto, seria incorreto afirmar simplesmente que toda dança é antibíblica.

O problema aparece quando a dança recebe uma função espiritual que não encontramos no ensino apostólico.

Quando alguém afirma que determinados movimentos corporais profetizam acontecimentos, uma coreografia é apresentada como instrumento para liberar cura, quando movimentos com tecidos são interpretados como atos que quebram fortalezas espirituais, quando determinadas cores passam a representar realidades espirituais que supostamente são liberadas durante a reunião.

Nesse momento, já não estamos simplesmente falando de arte, estamos falando de uma prática espiritual e práticas espirituais precisam de fundamento bíblico.

O Novo Testamento apresenta diversas orientações sobre a reunião da igreja, em 1 Coríntios 14, Paulo está preocupado com ordem, compreensão, edificação e participação da comunidade.

Ele menciona salmos, ensino, revelação, línguas e interpretação, seu objetivo é que tudo aconteça para a edificação, não encontramos ali uma estrutura de culto baseada em coreografias proféticas, não encontramos um ministério de dança profética estabelecido pelos apóstolos, não encontramos instruções para utilizar tecidos como instrumentos de transmissão de uma mensagem espiritual, essa ausência não deve ser ignorada.

Tecidos, bandeiras e objetos usados como instrumentos espirituais

Aqui precisamos ser ainda mais cuidadosos, o problema não é simplesmente utilizar um objeto em um ambiente religioso, o problema é atribuir ao objeto uma função espiritual que a Escritura não lhe atribui.

Quando um tecido é utilizado para “liberar” algo, uma bandeira é agitada para “declarar” uma vitória espiritual, quando um objeto é passado sobre pessoas para transmitir unção, determinados elementos são apresentados como instrumentos capazes de produzir cura, quebrar maldições ou liberar manifestações sobrenaturais.

Estamos diante de uma prática que não encontra fundamento no modelo apostólico do culto cristão, o Novo Testamento não ensina a igreja a utilizar objetos como instrumentos de ativação espiritual, a fé cristã não depende de objetos consagrados.

Não existe uma classe de objetos cristãos que carregue automaticamente a presença de Deus.

O Espírito Santo não precisa de um tecido para agir, Deus não precisa de uma bandeira para manifestar seu poder, a obra de Cristo não precisa de objetos complementares para se tornar eficaz.

Cristo é suficiente.

E os lenços de Atos 19?

Algumas pessoas recorrem a Atos 19 para justificar o uso de objetos ungidos.

O texto relata que Deus realizava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo, até lenços e aventais que haviam sido utilizados por Paulo eram levados aos enfermos, esse texto precisa ser lido com atenção.

Lucas está descrevendo acontecimentos extraordinários durante o ministério apostólico, o texto não apresenta uma ordem para que as igrejas confeccionem objetos ungidos e os utilizem como instrumentos permanentes de culto.

Essa diferença é fundamental, uma narrativa histórica não se transforma automaticamente em uma ordenança litúrgica.

Se aplicássemos esse princípio sem cuidado, teríamos que transformar todos os acontecimentos extraordinários de Atos em práticas obrigatórias da igreja, mas não fazemos isso.

O livro de Atos registra acontecimentos, as epístolas, por sua vez, fornecem instruções às comunidades cristãs. Por isso, precisamos perguntar não apenas, isso aconteceu na Bíblia? Mas também o que os apóstolos ensinaram que a igreja deveria fazer?

Essa pergunta protege a igreja de transformar acontecimentos extraordinários em fórmulas religiosas.

O óleo de Tiago 5 também não cria uma liturgia de objetos ungidos

Outro texto frequentemente utilizado é Tiago 5:14.

Tiago orienta o enfermo a chamar os presbíteros da igreja para que orem sobre ele e o unjam com óleo em nome do Senhor, o centro da passagem não é o poder mágico do óleo, o centro é a oração da igreja e a confiança no Senhor.

Transformar esse texto em uma doutrina de objetos ungidos seria ultrapassar aquilo que Tiago está ensinando, o óleo não é apresentado como uma substância espiritual que carrega uma energia divina.

A passagem não ensina que os cristãos devem guardar óleo ungido em casa, não ensina que objetos precisam ser ungidos para carregar poder espiritual, não ensina uma indústria religiosa de frascos, tecidos, mantos ou objetos consagrados, precisamos deixar o texto dizer aquilo que ele realmente diz.

O problema dos “atos proféticos”

A expressão “ato profético” tornou-se comum em muitos ambientes cristãos.

Entretanto, precisamos distinguir aquilo que os profetas do Antigo Testamento fizeram dentro da revelação bíblica de práticas criadas posteriormente e chamadas de “atos proféticos”.

Os profetas bíblicos receberam instruções específicas de Deus dentro de contextos específicos da história da redenção, Jeremias, Ezequiel, Oséias e outros profetas realizaram ações simbólicas porque Deus especificamente os direcionou.

Isso não significa que qualquer pessoa possa criar uma ação simbólica e chamá-la de ato profético, o problema é transformar criatividade religiosa em revelação divina.

Se alguém manda a congregação marchar sete vezes ao redor do templo para derrubar uma fortaleza espiritual, se manda levantar determinada bandeira para liberar uma bênção, se determina que as pessoas passem por baixo de um tecido para receber uma nova unção, se utiliza objetos para representar a quebra de maldições.

Precisamos perguntar novamente: Onde o Novo Testamento ensina a igreja a fazer isso? Não basta dizer que “funcionou”, experiência não estabelece doutrina, emoção não estabelece doutrina, testemunho não estabelece doutrina, uma manifestação não estabelece doutrina, a igreja precisa voltar à Escritura.

O culto cristão não é uma experiência que precisa ser produzida

Existe uma preocupação legítima quando começamos a pensar sobre a estrutura de muitos cultos contemporâneos, algumas reuniões parecem depender de uma sequência cuidadosamente construída para produzir determinadas emoções.

Música crescente, repetição, iluminação, movimentos, gritos, objetos, coreografias, declarações, apelos, nada disso, isoladamente, prova que uma reunião seja falsa, mas precisamos fazer uma pergunta muito mais profunda.

Se todos esses elementos forem retirados, ainda teremos um culto cristão? Se retirarmos a atmosfera artificial, ainda teremos Cristo? Se retirarmos os objetos, ainda teremos fé? Se retirarmos a performance, ainda teremos a Palavra? Se retirarmos a experiência emocional, ainda teremos o evangelho? Essa pergunta pode ser desconfortável, mas é necessária.

O culto cristão não precisa fabricar a presença de Deus, Deus não se torna mais presente porque uma bandeira foi levantada, não se aproxima porque um tecido foi movimentado, não libera mais poder porque a música aumentou, a presença de Deus não é controlada pela performance humana.

O que deve ocupar o centro do culto cristão?

Quando observamos as orientações do Novo Testamento, encontramos uma comunidade reunida ao redor de Cristo, da Palavra, da oração, dos cânticos, da comunhão, da Ceia, do serviço e da edificação mútua.

Em 1 Coríntios 14:26, Paulo pergunta o que acontece quando a igreja se reúne e apresenta diferentes formas de participação.

O princípio é claro, tudo deve contribuir para a edificação.

Colossenses 3:16 fala sobre a Palavra de Cristo habitando ricamente na comunidade, enquanto os cristãos ensinam e aconselham uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais.

Perceba o centro, a palavra de Cristo, não a performance, não o objeto, não o símbolo, não o ato profético, Cristo.

Isso não significa que o culto precise ser frio, sem alegria ou sem emoção, o evangelho produz profunda alegria, o problema é transformar emoção em evidência de que Deus necessariamente se manifestou.

Uma pessoa pode chorar porque foi tocada pela verdade do evangelho, outra pode chorar simplesmente porque uma música despertou uma lembrança, uma pessoa pode sentir arrepios durante um culto, outra pode não sentir absolutamente nada, nenhuma dessas experiências determina a verdade do evangelho, a nossa segurança está na Palavra e na obra de Cristo.

A Nova Aliança nos conduz para Cristo

Hebreus 10 apresenta uma das declarações mais poderosas sobre a obra de Jesus.

O autor mostra que os sacrifícios antigos não podiam aperfeiçoar definitivamente aqueles que deles participavam. Cristo, entretanto, ofereceu um único sacrifício pelos pecados e assentou-se à direita de Deus.

Essa imagem é profundamente importante, Cristo assentou-se, a obra foi realizada, o sacrifício foi oferecido, a redenção foi conquistada, o acesso a Deus foi aberto.

Por isso, a igreja não precisa reconstruir uma religião baseada em objetos sagrados, símbolos sacerdotais e mecanismos espirituais.

Temos acesso a Deus por meio de Cristo, essa é a beleza da Nova Aliança, não precisamos de uma bandeira para representar a presença de Deus, não precisamos de um tecido para transportar a unção, não precisamos de um objeto para ativar a bênção, não precisamos de uma performance para produzir um ambiente espiritual, não precisamos voltar para as sombras quando temos a realidade.Temos Cristo!

Como discernir práticas religiosas?

A pergunta mais segura para qualquer prática cristã não é “isso funciona?” Também não é “isso é bonito?” Tampouco é “muita gente faz?”.

A pergunta é:

Cristo e os apóstolos ensinaram isso para a igreja?

Esse princípio nos ajuda a separar tradição de Escritura, também nos ajuda a separar cultura de doutrina.Uma igreja pode desenvolver diferentes expressões culturais, Isso faz parte da diversidade do corpo de Cristo.

Mas uma expressão cultural não deve receber autoridade espiritual que a Bíblia não lhe concede, quando uma prática passa a ser apresentada como necessária para receber algo de Deus, precisamos examiná-la, quando um objeto passa a ser tratado como instrumento espiritual, precisamos examiná-lo, quando uma experiência passa a substituir a Palavra, precisamos examiná-la, quando símbolos da antiga aliança são trazidos para dentro da igreja como mecanismos de espiritualidade, precisamos examiná-los e o critério continua sendo a Escritura.

Não precisamos de menos Cristo e mais símbolos, precisamos de mais Cristo.

Talvez a maior necessidade da igreja contemporânea não seja encontrar novas maneiras de tornar o culto mais impactante, talvez seja recuperar a simplicidade e a profundidade do evangelho.

Cristo crucificado, Cristo ressuscitado, Cristo exaltado, Cristo como cabeça da igreja, Cristo como nosso mediador, Cristo como nosso sacerdote, Cristo como aquele que realizou a obra perfeita, quando isso volta ao centro, os símbolos deixam de ocupar o lugar da realidade.

A igreja não precisa de objetos para tornar Cristo presente, não precisa de bandeiras para tornar Deus poderoso, de danças proféticas para liberar o Espírito, de atos simbólicos para completar aquilo que Cristo já consumou.

O culto cristão não é uma tentativa humana de fazer Deus descer é a comunidade dos redimidos reunida porque Deus, em Cristo, já veio ao nosso encontro.

Talvez seja justamente isso que muitos cristãos precisam redescobrir, não precisamos de uma fé baseada em objetos, nem de uma espiritualidade sustentada por performances, ou misturar a antiga aliança com a Nova, precisamos voltar para Cristo, porque o centro do culto cristão não é aquilo que fazemos para tentar alcançar Deus.

O centro é aquilo que Deus já fez por nós em Jesus Cristo.

Conclusão

Questionar determinadas práticas religiosas não significa atacar pessoas.

Muitos irmãos sinceros praticam essas coisas porque foram ensinados que elas fazem parte de uma vida espiritual profunda, eles não estão necessariamente tentando enganar ninguém.

Por isso, a resposta não deve ser arrogância, deve ser Escritura, devemos abrir a Bíblia novamente, ler os textos dentro de seus contextos, distinguir Israel da igreja, distinguir a antiga aliança da Nova, distinguir narrativa de mandamento, símbolo de realidade, emoção de espiritualidade e, acima de tudo, devemos colocar Cristo novamente no centro.

A igreja não precisa voltar às sombras, a realidade chegou, seu nome é Jesus.

E quando entendemos a suficiência de Cristo, começamos a perceber que aquilo que parecia indispensável para o nosso culto talvez nunca tenha sido necessário para a nossa fé.

Mias estudos

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